Vanessa diz:
Escreve sobre isso no blog! É um absurdo mesmo!
...........................................................................
Anne diz:
Olha, estou adorando trabalhar com a alfa (1º ano) porque são menos alunos. Consigo ir à cadeira de cada um e ver de perto como eles estão. Eles avançam muito mais
...........................................................................
Anne diz:
As coordenadoras se ofendem quando eu falo que às vezes me sinto perdida. Acham que é uma crítica ao trabalho delas, você crê?
Vanessa diz:
É porque, talvez, elas se sintam às vezes perdidas também!
Anne diz:
Deve ser isso sim!
Vanessa diz:
Suas coordenadoras têm experiência prática com alfabetização de escola pública?
Anne diz:
Sinceramente? Acho que mão na massa mesmo, não!
Vanessa diz:
Então, como elas poderão te ajudar? Porque a teoria deve ser só uns 15 % da parada!
Anne diz:
Vou chamar o Chapolim Colorado
Vanessa diz:
Calma, Anne!
........................................................................
Anne diz:
Sabe, fico pegando livros didáticos pra pesquisar. Porque na faculdade tem muita teoria, mas pra vida real é "difirci". Eu me fico angustiada porque jamais conseguiria pegar uma cartilha pra trabalhar as benditas famílias. Estou fazendo tudo com "intuição"
Vanessa diz:
Esses quatro anos de alfabetização me tiraram vários preconceitos, inclusive com as famílias silábicas.
Anne diz:
Não jogo elas no mato, não. Mas o que eu digo é que eu não faria o percurso que foi feito comigo de trabalhar as vogais, as consoantes, as famílias simples, as complexas, entende? Com pseudo - textos.
Tipo, quando um aluno não sabe escrever "fada", mas chama-se Danilo me refiro ao DA do nome dele. Vai escrever dedo? D+A= DA e D+E? Entende?
..........................................................................
Anne diz:
Algumas coisas que li nesse meu recesso forçado me fizeram ficar mais tolerante com os meninos e isso está me ajudando muito.
Mas olha, se a escola definisse o que realmente é fundamental para o aluno aprender em cada série já me deixaria mais "pé no chão".
.........................................................................
Anne diz:
Eu estou em busca do melhor para os meus alunos. Fico encantada quando os vejo avançando, mas me sinto como se estivesse faltando algo. Sempre trabalhei com alunos alfabetizados em escola particular e é bem diferente.
Vanessa diz:
Esqueça a escola particular e nem compare os alunos de lá com os de cá.
Anne diz:
Nem é comparação entre os alunos. É da minha postura mesmo, ou, pelo menos, do meu domínio da situação, sabe?
"Dá-me luz, ó Deus do tempo"¹
....................................................................
Anne diz:
Não acho que o resultado dos meninos está mal não, sabe?
Vanessa Lee diz:
Qual é a sua maior dificuldade?
Anne diz:
É saber exatamente até onde preciso ir com eles e o que preciso fazer pra ajudá-los a avançar. Por exemplo, se um aluno ainda não conhece as letras (nomes delas, como escrevê-las), como ajudar a criança a avançar? E, O PIOR, como ajudar essa criança numa turma onde alguns já lêem com fluência e escrevem com letra cursiva? Como não desmotivar uma sem esquecer a outra? Nó cego!
Vanessa Lee diz:
Trabalho diversificado. Eu tenho ainda muita dificuldade em fazer trabalho diversificado, mas o jeito é encarar!
Anne diz:
Eu estou optando por trabalhar uma mesma atividade com abordagens diferentes, quando dá. Na atividade de hoje tinha um caça palavras e um espaço para as crianças escreverem os nomes de umas personagens. Um quadrinho para cada letra, como se fosse cruzadinha. Foi muito bom! Algumas crianças estão começando a perceber detalhes sobre a escrita que elas não percebiam como, por exemplo, que a ordem das letras é importante.
Vanessa diz:
Acho que essa atividade (como um quadrinho para cada letra) só funciona pras crianças que já pelo menos são silábicas. Para as pré-silábicas pode até travar porque o nível é além do nível delas. Acho que uma das coisas que mais causa indisciplina é quando a criança se frustra por não conseguir fazer o dever.
Eu gosto de palavra geradora porque trabalha ao mesmo tempo letras (vogais e consoantes), sílabas e palavras. Assim cada um consegue trabalha no seu nível.
Anne diz:
Tem alunos que sabem ler e escrever, alunos que já lêem algumas coisinhas e conhece fonemas e outras que nem sabem o desenho e nomes das letras. Isso sem falar que TODO E QUALQUER MATERIAL IMPRESSO QUE EU LEVO, TENHO QUE BANCAR! A escola não oferece nadica de nada: nem livros, nem coisa nenhuma (só um de alfa que ainda não serve pra maioria, só pra uns três).
Vanessa diz:
Nem mimeografo?
..............................................................................
Anne diz:
Mas as professoras da terceira série vivem me tesourando.
Vanessa diz:
Todo mundo quer receber o aluno já pós-graduado!
..................................................................
Anne diz:
Sabe Van, é muuuuuito mais fácil encher um quadro com decoreba. Mas não admito isso, não faço, não aceito!
Vanessa diz:
Mas o objetivo é a-l-f-a-b-e-t-i-z-a-r, ou seja, tornar os alunos alfabéticos!
Anne diz:
Pois é!!!!! E para os que já escrevem e lêem potencializarem suas habilidades.
......................................................................
Anne diz:
Quando vou ler, estudar, percebo que tem muita coisa que estou fazendo direitinho isso me dá um alívio, sabe?
Vanessa diz:
Isso é bom!
Anne diz:
Mas o problema é que não me sinto segura, firme. Tive uma turma bem difícil o ano passado. Trinta alunos, muitos silábicos (a maioria), poucos alfabéticos. Alguns até pré-silábicos. Todos avançaram e muito! Era uma terceira série com alunos de 8 a 14 anos!!! Os que seriam reprovados, mas foram aprovados graças a progressão automática saíram, no mínimo, silábico alfabéticos. Fiquei muito feliz!
........................................................................
Vanessa diz:
Na minha escola a gente acompanha os alunos. Deveria ser assim em todas as escolas, mas não é.
Anne diz:
Eu gostaria de acompanhar só no primeiro ciclo.
Vanessa diz:
Há alunos que está há três anos comigo.
Anne diz:
Eu preferiria acompanhar minha turma, mas como não é a "política" da escola tenho medo de "perder a vaga" na alfa. E não gostaria de ficar com a segunda série (terceiro ano) de alguém irresponsável nos anos anteriores.
.....................................................................
Anne diz:
Mas o que fazer quando o aluno passou por professores irresponsáveis nas duas séries anteriores??
Vanessa diz:
Olhe que as professoras que receberem seus alunos da progressão automática podem achar que a irresponsável é você!
Anne diz:
Isso é!
Vanessa diz:
Muitas vezes não são irresponsáveis. Apenas não conseguem vencer suas dificuldades. Têm zilhões de dúvidas e dificuldade como nós e não acharam ajuda, então... Eu já topei com muita professora acomodada, mas todas no fundo, lááááááááá no fundo querem que seus alunos avancem, seja lá como!
Bem, se você herdar alunos dessas professoras, o jeito será encarar, né? Pelo menos a criança terá a chance de ter outra professora mais comprometida.
Anne diz:
Pois é, mas ainda assim acho que seria muito melhor acompanhar as turmas do 1º ao 3º ano.
Vanessa diz:
Acompanhar ou não acompanhar tem suas vantagens e desvantagens.
Anne diz:
É sim. Eu estou adorando acompanhar os primeiros passos dos meus alunos do 1º ano no mundo das letras. Para alguns é o primeiro contato messsssmo!
...................................................................
Anne diz:
Sua escola está com a escolarização de 9 anos?
Vanessa diz:
A rede municipal está.
Anne diz:
Na escola do estado estou com a alfa e na do município estou com uma segunda série.²
Vanessa diz:
Antigamente, na rede municipal a criança já entrava na 1º serie. Já nas escolas particulares, depois do grupo1, 2,3,4,5, ainda freqüentam a alfabetização antes da 1º série.
Anne diz:
E lá eles entram na 1ª série ainda, na rede municipal. Eu estou com a segunda série (que será terceiro ano no próximo ano).
Vanessa diz:
Eu estou no 3º ano de escolarização.
Anne diz:
Na escola do Estado, o ensino fundamental já é de nove anos. Lá estou com um primeiro ano e amando. Aprendendo muuuito e enlouquecendo, rs. Mas amando!
Vanessa diz:
Enlouquecendo é o estágio normal!
Anne diz:
E fora que a afetividade deles é uma coisa deliciosa demais! Me sinto acolhida lá.
...........................................................................
Anne diz:
Estou bem mais tolerante, Van. Estou adorando isso em mim. Sabe, antes o meu aluno não podia nada. Era um estresse pra mim e pra ele. Estou aprendendo a negociar. Tipo, coisa simples: eu entrego as fichas dos nomes para quem não sabe o nome ainda escrever nas atividades e ficava neurótica, surtada, porque eles acabavam de usar a ficha e queriam devolver.
Agora eu deixo a bendita caixinha aberta e eles podem levantar e guardar quando terminam. Simples assim!!!! Encontramos o Nirvana. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Vanessa diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Anne diz:
Você ri, né? Mas eu era muito chata. Mais do que ainda sou.
Vanessa diz:
Eu sou chata e assumo!
Anne diz:
Aprendi a ser mais tolerante - pasme - numa comunidade de mães no Orkut. Lendo o depoimento delas, em vez de me colocar no lugar delas fui me colocando no lugar do aluno. E as coisas estão fluindo melhor.
Agora estou assim: quando o aluno não está a fim de aula, fico me perguntando "Por que será? Não deve estar interessante pra ele". Eu estou tentando conquistar os alunos com esse perfil e estou, modestamente, conseguindo!!! Peço ajuda deles, pergunto o que não está bom.
...............................................................................
Anne diz:
Ah, outra coisa: tarefa de casa pra alfa. Só mando duas vezes por semana e atividades que sejam legais, divertidas. O mais importante: que o aluno consiga fazer com o mínimo de intervenções porque se não é pro aluno fazer, pra mim não tem sentido!
Vanessa diz:
Eu também acho!
Anne diz:
Já ouvi muitos alunos dizendo "Tia, minha mãe diz que você só passa tarefa fácil". Às vezes nem é tão fácil, principalmente se o aluno tiver que fazer só, sem adultos por perto. Claro que pro adulto algumas coisas são muito fáceis mesmo. Afinal, se o adulto for alfabetizado, é bobo seguir a trilha das letras em ordem alfabética, né?
Vanessa Lee diz:
É sim!
.......................................................................
Anne diz:
Acho que esse papo daria um post no blog, ashuashuahs
Vanessa diz:
Se quiser, eu copio e colo lá!!!!
........................................................................
Vanessa Lee diz:
A gente também tem que parar de posar de super- professoras e expor uma coisa que acho que toda professora tem: angústia!
¹ Trecho da música “Horizonte Distante” de Marcelo Camelo, dos Los Hermanos.
² Vanessa é professora em Salvador(BA) e Anne em Maceió(AL), portanto, pertencem a Redes Municipais de Ensino distintas.
